Estacionar é tão giro, quem diria

Era domingo, faltava uma semana para o natal e, tal como se espera, as pessoas transformam-se em pequenos animais “ferozes” que se enganaram na sociedade em que vivem. Em tempos humanos, naquele domingo, só vi leões atrás de gazelas. Como o contexto é importante, o relato que segue acontece no CascaiShoppiung.

Diz-se por aí que Cascais é chique, como tal, esperava comportamentos calmos e narizes empinados, apenas no sentido em que caminha tudo lentamente como se não existisse pressa. Quando cheguei ao parque recordaram-me rapidamente que isso não é nada assim. Cascais não muda o comportamento das pessoas nos centros comerciais e, verdade seja dita, o CascaiShopping é em Alcabideche, fator que muda tudo. Ter uma tia de Cascais pode ser tema de conversa, já ter uma tia de Alcabideche não interessa a ninguém.

Chego ao parque exterior e diverti-me, apenas observando o que me rodeia. Carros à procura de lugar são muitos, lugares são mais ou menos zero. Ainda por cima nem existem aquelas luzinhas verdes e vermelhas para ajudar, o que torna tudo mais interessante. Pessoas com compras feitas saem alegre e pacificamente pela porta e deslocam-se, passo a passo, para o carro. Atrás delas, um carro persegue-as lentamente. Tal como se fosse um leão que observa uma gazela e escolhe o melhor momento para atacar.

As pessoas entram e o leão espera pelo lugar. Do outro lado, sem sequer ter perseguido ninguém, aparece outro leão à espera. Na selva, gosto de acreditar que os leões andam à porrada como verdadeiros machos para ver quem ataca a gazela primeiro. Na selva moderna, “um parque de estacionamento”, tudo se resolve com um pisca-pisca. Eu nem gosto de ver pessoas à porrada, mas ver pessoas a discutir por um lugar de estacionamento é tão inútil que quase me entretém.

Se eu for a pé e vier um carro atrás de mim a andar tão devagar quanto eu, no mínimo vou-me sentir ameaçado e pensar que se trata de um psicopata. No centro comercial, este mesmo comportamento é aceitável. Será? Também não sei.

Um Pequeno Café Pequenininho

Gosto do jeito carinhoso com que se fala de coisas pequeninas, mesmo que não o sejam. Afinal, somos um “pequeno” país na ponta da Europa, mas que está recheado de coisas boas para ver e fazer. Portugal é como uma boa bifana de roulotte, o pão é sempre pequeno demais para o tamanho do bife. Seja para quem visita Portugal ou para quem pede a bifana, o resultado é sempre positivo.

Estava eu na fila para pedir um café quando ouço, “são só dois cafezinhos, por favor.” Até nestes pedidos gostamos de ser pequenos (ou será carinho para com desconhecidos?), mas é fácil perceber porquê. Alguém já ouviu alguém chegar a um estabelecimento e dizer “quero um cafézão, se faz favor”? Parece um pedido meio bruto.

Primeiro, é difícil dizer esta frase sem imaginar que é alguém com uma voz grossa, pelo menos é assim que eu imagino e soa-me sempre a um cenário bem engraçado. E será que essa pessoa seria levada a sério? “Quero um croissant misto e um cafézão para levar.” Parece giro, mas improvável. Talvez teste esta ideia um dia.

Talvez seja um problema no nosso discurso. Queremos ser grandes e mostrar a nossa grandeza enquanto povo e país, mas não abandonamos os diminutivos. Porquê? Porque é carinhoso e dá um quentinho no coração. A verdade é que os “-inhos” no fim das palavras ficam melhor que os “-ãos”. Por exemplo, ainda no café, pedem um copinho ou um copão? E não vale responder “copo”!

Uma vida tão injusta

“Olá! Desculpem. Estou nervosa. Preciso de desabafar como me sinto, o que penso, e nem sempre consigo ter coragem para o fazer. Hoje, é o dia! Não aguento mais! Ninguém quer saber de mim, só me ligam quando ela não pode ou está ocupada. Exijo respeito, igualdade. Parem de venerar a minha irmã! Já chega! Eu também sou boa, sabiam?

Eu tenho uma irmã gémea e somos iguaizinhas. A única diferença é que ela é adorada e eu sou esquecida, constantemente. Vivemos juntas, estamos sempre juntas, mas nunca ninguém me vê. Estou sempre fora das grandes decisões, das coisas mais importantes. Por exemplo, porque é que nunca sou eu a mudar o canal da televisão? Eu também consigo, tão bem quanto ela.

Dêem-me uma hipótese, pelo menos uma e vão ver do que sou capaz. Quando é preciso escrever, ou assinar algum documento importante, pedem sempre à minha irmã. As únicas vezes que se lembram de mim, é quando a minha irmã fica sem força e precisa da minha ajuda. Aí, trabalhamos em equipa, mas ninguém me agradece.

De vez em quando, lembram-se de mim e pedem alguma coisa. Dou sempre o meu melhor, mas nunca ficam satisfeitos. Estou farta de viver na sombra da minha irmã. Quero uma vida melhor!”

Este é o desabafo sentimental de uma mão esquerda que vive assombrada no corpo de um destro. O seu único desejo era ter um dono esquerdino.

O Bom Preguiçoso

Segunda de manhã
O sono é o rei.
Não vou desobedecer
E na cama ficarei.

Depois de almoço
Sinto-me espanhol.
Queria tanto fazer
Uma sestinha ao sol.

A preguiça é a rainha,
Que me acolhe no sofá.
Só quando a fome aperta
É que o meu corpo se mexe de lá.

O pior dos preguiçosos
Tem sempre um dilema.
“Vou tomar banho agora,
Ou cheirar mal já não é problema?

Qual o melhor dia da semana? Sabingo, com certeza!

Ter um feriado durante a semana é sinónimo de felicidade para uma grande parte da população. Normalmente, para quem trabalha, as opções são duas: ou não se trabalha, ou recebe-se a dobrar. Qualquer uma das opções é positiva, mas talvez a palavra “feriado” não seja a melhor nomenclatura para descrever tal felicidade.

“Feriado” é uma palavra parecida com férias e, quem não está a usufruir desse maravilhoso (e curto) período de tempo, fica um pouco infeliz. O tema “férias” é sempre muito entusiasmante, mas um pouco triste porque, independentemente de faltarem meses, semanas, ou apenas poucos dias, o primeiro dia de férias demora sempre uma eternidade a chegar. Se o problema é a palavra, que tal mudar?

Quando o feriado é parte do fim de semana, ninguém repara, mas fica bem pertinho toda a gente fala em “fim de semana grande”. E quando é ao meio da semana, o que se faz?

“Feliz Sabingo!” é o que direi para todas as pessoas em véspera dos feriados que não prolongam fins de semana. A justificação é simples. Um feriado, essas estupendas 24 horas, vivem-se com a intensidade de um fim de semana inteiro. O feriado, para além de tudo o que tem de bom, confunde o nosso corpo porque, pelo menos no meu caso, até à hora de almoço sinto-me num sábado e, a partir da hora em que a minha barriga é feliz, começa a ser domingo. É como se o meu corpo sentisse o fim de semana de forma altamente acelerada. E ´r por isto que quero propôr o “Sabingo”!

Basicamente, é tudo igual, nada vai mudar. Um feriado é sempre um feriado mas, pensem bem, não seria muito mais engraçado que se chamasse “Sabingo”? Experimentem dizer em voz alta e vão ver. A palavra é muito mais engraçada e até parece que saiu do circo. Bom, bom, era  que 2017 fosse um ano cheio  de “Sabingos”!

Manel de castigo, o comboio é seu amigo

Manuel, o adolescente que vive a olhar para baixo, contínua encantado com o seu smartphone. Para ele, as únicas vidas com interesse são as que descobre navegando pelas redes sociais, sempre desinteressado pela vida que os seus olhos já não veem.

Na escola, Manel sempre foi bom aluno, tal como se exige a um “menino de boas famílias de Cascais”. Todos os dias, o motorista da família conduz Manel até à escola no Estoril, num pequeno trajeto de 15 minutos. Sem nunca olhar para a frente, Manel está já dentro da escola. Junto dos amigos, todos conversam de telemóvel na mão, ritual que levam para dentro da sala de aula.

Este vício tem feito com que Manel piore as notas e aparecem as primeiras negativas. Manel ainda não consegue estudar pelo smartphone, talvez fosse essa a sua salvação. Com a primeira negativa, o primeiro castigo. “Manuel, meu querido, já viu as suas notas? É uma vergonha! Amanhã não há motorista para ninguém, vai ter de ir de comboio ou como você quiser!” A sentença está dada, Manel ouviu com atenção e a primeira coisa que faz é ver qual o caminho para a estação.

Na manhã seguinte, Manel recebe uma boa notícia. Como é o primeiro castigo, a sentença foi reduzida e Manel tem boleia até à estação. Saí do carro, mochila às costas e aí vai ele, olhando para baixo, a ver o caminho no telemóvel. O motorista, sempre muito prestável a toda a família, decide acompanhá-lo com medo que se perca. Conhecendo o Manel desde pequenino, é bem provável que aconteça.

Vai com ele, ensina-o a comprar bilhete e deixa-o dentro do comboio. Manel entrou, sentou-se e aproveitou para ver o que se passava pelo Facebook. Manel sabe que demora 15 minutos de casa à escola, mas não sabe que de comboio são apenas 4, por isso, fica tranquilo, vendo as horas.

Passaram 15 minutos e Manel aproxima-se das portas do comboio. Comboio parado, portas abertas, Manel olha para a frente e não conhece o que os seus olhos vêem. Natural para quem passa o dia a ver o mesmo ecrã. Procura uma placa e descobre “Oeiras”. Conhece o nome, pois é “onde o meu pai tem o barco estacionado”, mas só conhece a marina. Assustado, telefona ao motorista que vem em seu socorro, salvando-o desde suplício. Amanhã é outro dia, talvez Manel tenha aprendido a lição, porque pior que ter más notas, é ter maus hábitos.

Martim e a (des)motivação do chocolate

Um dia, como quase sempre, Martim está deitado no sofá a ver televisão e pensa: “Ainda falta tanto tempo para o jantar, se calhar vou fazer exercício.” Feliz com a decisão, levanta-se decidido e vai ao quarto trocar de roupa. Martim gosta de exercício e de planear um bom treino, focado nos objetivos que quer atingir.

No quarto, entre calções e t-shirts, escolhe algo com estilo. Martim não vai sair de casa, mas estar bem vestido é meio caminho andado para um bom treino. Ténis calçados, começa o aquecimento. “Fogo, esqueci-me de pôr música!” Liga o computador, abre o Spotify e vai pesquisando como se a primeira música fosse o melhor tónico para começar. Entretanto, 15 minutos depois, a música está escolhida.

Volta ao aquecimento, feito mal e porcamente, porque a vontade não é assim tanta. “Bem, hoje vou começar de cima para baixo e fazer umas flexões.” Martim gosta de ser organizado, por isso, decide procurar uma boa aplicação de flexões, que organize as séries e os dias em que as deve fazer.

A internet é um sítio maravilhoso, cheio de gurus de fitness que criam sites e aplicações para quem tem preguiça de perder tempo a pesquisar. Contudo, Martim perde mais 15 minutos na procura da aplicação perfeita. Confia no seu instinto, faz o download e o registo. Está na hora de começar!

A primeira gota de suor é derramada por Martim e, com um total de 40 flexões, sente que fez um esforço heroico, iludido a pensar que, de repente, está a ficar em forma. Entusiasmado, vai buscar os halteres para mais uns exercícios. Antes de começar apercebe-se que tem sede. Falta a garrafinha de água ao seu lado.

Martim não bebe água da torneira. Vive tão perto do mar que as águas quase se confundem. Vai à despensa à procura de uma garrafa, abre a porta, e vê uma bonita e atraente tablete de chocolate. Sem querer, sorri. Pega na tablete, na água e vai para o quarto. “Foca-te no treino Martim! Se correr bem, no fim podes comer uns quadradinhos”, pensa ele, tentando-se motivar.

Passou uma hora e Martim ainda só fez 40 flexões. Por muito que se tente concentrar, a tablete é a única coisa que brilha no seu horizonte. Olha para o relógio, faz contas e pensa: “O jantar está quase aí e o chocolate é um excelente aperitivo. Por hoje foi bom, amanhã volto mais forte.” Mas não, amanhã o Martim não volta mais forte, nem mais fraco, volta sim, mais gordito.