Soneto de Ano Novo

Ano novo, vida nova e uma lista
Cheia de resoluções para não cumprir.
Tal como os canários gostam de alpista,
No ano novo os humanos gostam de mentir.

Exercício físico foi o primeiro
Mas não tenho qualquer vontade.
Não levanto o meu traseiro,
Nem que venha uma tempestade.

O segundo é sobre começar a dieta.
Isso que é já uma história antiga,
Tanto esforço para perder a barriga.

Eu só desejo escrever mais poemas,
Agarrar na caneta e não ter algemas
Para escrever livremente até ser poeta.

Martim e a (des)motivação do chocolate

Um dia, como quase sempre, Martim está deitado no sofá a ver televisão e pensa: “Ainda falta tanto tempo para o jantar, se calhar vou fazer exercício.” Feliz com a decisão, levanta-se decidido e vai ao quarto trocar de roupa. Martim gosta de exercício e de planear um bom treino, focado nos objetivos que quer atingir.

No quarto, entre calções e t-shirts, escolhe algo com estilo. Martim não vai sair de casa, mas estar bem vestido é meio caminho andado para um bom treino. Ténis calçados, começa o aquecimento. “Fogo, esqueci-me de pôr música!” Liga o computador, abre o Spotify e vai pesquisando como se a primeira música fosse o melhor tónico para começar. Entretanto, 15 minutos depois, a música está escolhida.

Volta ao aquecimento, feito mal e porcamente, porque a vontade não é assim tanta. “Bem, hoje vou começar de cima para baixo e fazer umas flexões.” Martim gosta de ser organizado, por isso, decide procurar uma boa aplicação de flexões, que organize as séries e os dias em que as deve fazer.

A internet é um sítio maravilhoso, cheio de gurus de fitness que criam sites e aplicações para quem tem preguiça de perder tempo a pesquisar. Contudo, Martim perde mais 15 minutos na procura da aplicação perfeita. Confia no seu instinto, faz o download e o registo. Está na hora de começar!

A primeira gota de suor é derramada por Martim e, com um total de 40 flexões, sente que fez um esforço heroico, iludido a pensar que, de repente, está a ficar em forma. Entusiasmado, vai buscar os halteres para mais uns exercícios. Antes de começar apercebe-se que tem sede. Falta a garrafinha de água ao seu lado.

Martim não bebe água da torneira. Vive tão perto do mar que as águas quase se confundem. Vai à despensa à procura de uma garrafa, abre a porta, e vê uma bonita e atraente tablete de chocolate. Sem querer, sorri. Pega na tablete, na água e vai para o quarto. “Foca-te no treino Martim! Se correr bem, no fim podes comer uns quadradinhos”, pensa ele, tentando-se motivar.

Passou uma hora e Martim ainda só fez 40 flexões. Por muito que se tente concentrar, a tablete é a única coisa que brilha no seu horizonte. Olha para o relógio, faz contas e pensa: “O jantar está quase aí e o chocolate é um excelente aperitivo. Por hoje foi bom, amanhã volto mais forte.” Mas não, amanhã o Martim não volta mais forte, nem mais fraco, volta sim, mais gordito.

Palmadinhas Futebolísticas

Ai, o futebol. Tanta paixão, tanta loucura, tanta coisa por explicar. Notícias, reportagens, livros, debates e mais debates, comentadores, treinadores de bancada, existe de tudo um pouco quando o assunto é futebol. Contudo, existe um tema sobre o qual ninguém fala. Vou já quebrar o gelo!

Sempre que há uma substituição, o jogador que sai, vai cumprimentar o treinador e leva uma palmadinha no rabo. Porquê? No meu tempo, quando era uma pequena criança, esse tipo de tratamento era um castigo. Uma palmada era um corretivo para nos fazer aprender uma lição. No futebol não é nada assim! A palmadinha significa “boa rapaz, jogaste bem!” Ou mesmo que jogue mal, aquilo parece um gesto carinhoso numa zona que deve estar extremamente suada. Não percebo este fetiche pouco higiénico.

O adepto de futebol, dentro do seu cliché mais puro, é um macho que bebe cervejas, arrota com força por cima e por baixo, e acompanha com tremoços. Será que este fiel adepto macho aprecia este comportamento? Parece-me muito pouco másculo. Será que os jogadores se sentem desconfortáveis com a palmadinha e estão a sofrer em silêncio até agora? Ou será que gostam e se sentem confortáveis? Cada um sabe de si.

Tantas perguntas que talvez não sejam respondidas. Uma coisa é certa, já não me importo tanto de ter nascido sem o talento de um craque da bola.

Madalena, amante de segunda

Madalena é apaixonada pela vida, mas não percebe o quanto gosta de uma segunda-feira. É um dia como outro qualquer, tem 24 horas, mas carrega uma panóplia de desafios e sonhos por explorar. Nem os amigos compreendem tal fascínio, mas o dia que muitos pintam de cinzento, Madalena carrega-o de arco-íris.

No sábado, Madalena acorda e a primeira paragem que faz é a balança, que a espera tranquilamente no canto da sua casa de banho. Os números são simpáticos, mas afastam-se ligeiramente do valor pretendido. Eis que surge a primeira decisão: “Vou ter mais cuidado com a alimentação, vou fazer dieta. Mas hoje é sábado, é melhor aproveitar o fim-de-semana! Começo segunda para a minha semana começar bem.”

Depois de satisfeita com um bom pequeno-almoço, Madalena vai fazer as compras para preparar a sua nova rotina alimentar. Legumes e vegetais, carne e peixe, e o novo livro de receitas saudáveis que lhe capta a atenção. Madalena gosta de bolachas, gosta de snacks entre as grandes refeições e, por isso, procura a melhor “rua” do supermercado: “Bolachas e afins”. A escolha é difícil, mas a jovem está confiante, e pega SÓ  em produtos nutritivos, com poucas calorias e, talvez (rezando para que não), fracos de sabor.

Madalena vive no 2º andar de um prédio sem elevador, coisa que não a assusta. Mas, hoje, a rapariga não conta só com o seu próprio peso, leva também três sacos pesados. Naturalmente, e com algum esforço, chega a casa, pousa os sacos, e deita-se para recuperar o folgo. Está muito mais cansada do que era suposto estar. Sente-se fraca, sente-se frágil. Surge, assim, nova decisão: “tenho de começar a fazer exercício. Até parece mal cansar-me com tão pouco. Começo na segunda! Descanso no fim-de-semana para estar bem preparada na segunda.”

Hoje é segunda-feira, Madalena acorda e faz tudo aquilo que tinha prometido, faz tudo aquilo que queria fazer. Madalena sente-se feliz, pois cumpriu todas as suas promessas. Acaba o jantar e pensa: “Vou comer um gelado, eu mereço.” E, de repente, a promessa fica desfeita, pelo menos parte dela, mas Madalena contínua feliz. Hoje é quarta, ontem foi terça, e Madalena esqueceu-se que já tinha triunfado no inicio da semana. Semana atarefada, como sempre, e os dias passam até que chega sábado. Acorda, levanta-se, pesa-se e pensa: “Vou ter mais cuidado com a alimentação, vou fazer dieta. Mas hoje é sábado, é melhor aproveitar o fim-de-semana! Começo segunda para a minha semana começar bem.”

A Madalena não sou eu, mas às vezes sou. Serão poucas? Serão muitas? Se calhar, #somostodosmadalenas !