Estômago à prova de bala

Com a quantidade de restaurantes e estilos de cozinha que nascem em cada esquina, o conceito mudou completamente. Antigamente, eu ia almoçar fora porque queria comer, agora vou para viver uma experiência gastronómica incrível, que vai espantar e entusiasmar as minhas papilas gustativas em níveis extraordinários. No último restaurante que visitei senti tudo isto de forma muito mais alternativa e enriquecedora.

Um grupo faminto e esfomeado procura almoço e sobe uma rua do Porto até entrar num típico café/snack-bar que, supostamente, também serve uns almoços bons e baratinhos. Na entrada, o cheiro intenso a fritos e panados fez-me sentir como se fosse uma batata frita esquecida durante dias numa fritadeira ligada durante duas semanas. Sim, o cheiro era mesmo muito intenso. Com ou sem banho tomado, depois de lá entrar, sairíamos todos com o mesmo perfume.

Estava cheio e não havia lugares, o que costuma ser um bom indicativo. Esperar ou procurar outra alternativa? Enquanto se pensava numa solução, alguém descobriu umas escadas que faziam prever um 2º andar pronto a servir refeições. ”Descobriu” é uma excelente palavra, pois talvez nem os empregados do café se lembrariam de tal região.

Um espaço amplo cheio de mesas vazias e desarrumadas, expceção feita a um senhor que estava sentado à beira de uma espécie de varanda com vista para a entrada do café. Também ele parecia ter sido esquecido por quem o estivesse a atender, e talvez tenha sido por isso que esperava tranquilamente de cigarro na mão. Tal como é normal neste tipo de estabelecimentos (até existe legislação) não é permitido fumar. Como tal, também não existiam cinzeiros. E a cinza? Bem, a cinza, também esquecida pelo fumador, ia caindo descontraidamente pela varanda, espalhando-se pelo rés-do-chão.

Se o fumo de um cigarro pode ser incomodativo durante a refeição, ali não fez qualquer confusão. Aliás, o cheiro a fritos continuava a ser tão intenso e agressivo, que até as minhas narinas ficaram traumatizadas para a vida. Entretanto, já sentados, começámos a observar o espaço que nos rodeava, mas isso fica guardado para a segunda parte desta história.

(Ler o Segundo Episódio desta história.)

Monstrinho das Bolachas

Se queres ficar em forma,
Mas és muito preguiçoso
O melhor é começares
Por não seres tão guloso.

Eu percebo a tua luta
Contra as bolachas e o pão.
Mas se continuares assim
Só vais vestir calças sem botão.

Compra uma alface.
Não percas a esperança.
Ainda vais a tempo
De perder essa pança.

Esta é a história
Do Monstro das Bolachas.
Não sei se ele consegue.
E tu, o que achas?

Eterno “Papa-Bolachas”

A gula por bolachas
Parece não ter fim.
Olha ali tão boas,
Encontrei as Chiquilin.

Subo para a balança,
E o meu coração dói.
O melhor é ir comer
Mais uma Chips Ahoy!

Vou ganhar uns quilinhos,
Devia ter mais cautela.
Mas como posso resistir
A uma colher de Nutella?

Não falta aqui um bocadinho de pão?

Comer é bom, é mesmo muito bom, e eu sou uma pessoa muito dedicada à alimentação. Refeições saudáveis ou altamente calóricas, o que interessa é que seja bom e na quantidade que eu queira, muito ou pouco. E é precisamente ao nível da quantidade que eu não entendo os cafés.

Imaginemos que vou tomar o pequeno-almoço. “Quero um Ucal fresco e uma sandes com fiambre e manteiga, se faz favor. Obrigado”, digo eu, ansioso e esfomeado porque o cheirinho de pão quente mexe comigo. Entretanto, chega o meu pedido à mesa. Com o Ucal tudo certo, mas com o pão a história é outra.

Aqui esta ele, carregadinho com 5 fatias de fiambre e meio pacote de manteiga. Para quê o exagero? Assim, quase não consigo saborear o pão. Já para não falar de que, em casa, só ponho duas fatias se a primeira for pequena. Acho que seria muito mais rentável para os cafés se, depois de receber um pedido destes, perguntassem “Quantas fatias deseja? E de manteiga? Corto uma fatia ou ponho um bocadinho como quase toda a gente?”

Na verdade, isto não me incomoda muito. Tal como disse, o que eu gosto mesmo é de comer, por isso, não faço grande cerimónia e nem as migalhas ficam no prato. De qualquer das formas, não era engraçado que pudéssemos escolher a comida desta forma altamente personalizada?

Uma baguete francesa com surpresas

Antes de toda esta revolução tecnológica de levar o telemóvel para a casa de banho, as melhores leituras eram os rótulos das embalagens do shampoo, do gel de banho e de outra qualquer coisa. Durante um banho de imersão, pode ser perigoso estar a ler um livro que se goste, por isso, os rótulos tornaram.se em autocolantes muito sexys para ler, também porque eram a única coisa que está na banheira.

Durante o pequeno-almoço, quando não dava nada de jeito na televisão, o rótulo dos cereais ou do pacote de leite também se tornam bastante atrativos. Estes conseguiram continuar a ser atraentes, mas por razões diferentes. Dietas diferentes, alergias peculiares (ou não), fazem com que se leiam criteriosamente os rótulos das coisas que se comem. Também eu o faço, mais por curiosidade.

“Pode conter vestígios de”, é o início de uma frase que se encontra em todos os rótulos de embalagens de comida. Em alguns, vá, se calhar não são assim tantos. Não sei, eu comi uma baguete embalada e por acaso reparei nisso. Não consigo perceber o que quer dizer. Será que eles cozinham as coisas de olhos fechados? Ou será que eles próprios não põem rótulos nos frascos do tempero.

Imaginem a equipa que faz estas sandes. Cada um dá o seu toque especial na sandes e, no fim de cada dia, têm uma reunião para fazer o rótulo.

Chefe dos Chefes: Então digam-me lá, que ingredientes usaram para fazer a sandes?
Chefe dos outros: Pão de baguete francesa, dois pedacinhos de frango, molho de maionese e uma folha de alface.
Colaborador 1: Era só isso? Eu pus uma fatia de cebola.
Colaborador 2: E eu pus patê de amêndoas caramelizadas.
Colaborador 3: Amêndoas? Mas não era suposto ser patê de amendoins caramelizados?
Chefe dos Chefes: Epá, só me dão trabalho. Deixem-me pensar um bocadinho. (…) Já sei! Mudem o rótulo! Escrevam no fim: “Pode conter: amêndoas, amendoins e cebola. Não tenho paciência para verificar uma a uma.

A preguiça e o pacote de bolachas

Que atire a primeira pedra quem nunca abriu uma embalagem de “abertura fácil” da forma “errada”. Que fique muito claro que, quando falo em “atirar pedras”, não me estou a colocar como alvo. Aliás, eu acho o ditado giro, mas confesso que não sei para onde se atiram as pedras, vou pesquisar. Entretanto, para esta crónica, vou propor um novo ditado, muito mais educativo: “Que dê o primeiro arroto quem nunca abriu uma embalagem de abertura fácil da forma errada!”

Voltando ao tópico, vivemos numa época em que tudo promove a preguiça das pessoas: escadas rolantes, sofás (um bom sofá é tudo o que é preciso para não se querer fazer mais nada senão estar lá), comandos eletrónicos (para a tv, o ac, e outras tantas siglas) e, claro, a abertura fácil.

Aproveito para pedir desculpas a todos aqueles cujo trabalho é pensar e desenhar estas embalagens e pacotes para nos facilitar a vida. Às vezes é trabalho em vão porque eu nem sempre respeito essas instruções. Primeiro porque não as vejo, às vezes porque não as percebo e, a razão mais importante, porque estou cheio de fome e quero muito comer as minhas bolachas, ou outras comidas, mas sobretudo bolachas.

É tudo à bruta! O meu cérebro não raciocina assim tão bem, ele pensa logo na forma mais fácil de abrir os pacotes. Logo, a abertura fácil é a opção que o meu cérebro escolhe. É simples, se é cartão, rasga-se. O meu cérebro conhece-me demasiado bem, ao ponto de saber que eu vou perder tempo a mais à procura dessa abertura e porque, se a encontrar, vou querer abri-la da forma mais perfeitinha, para ficar bonitinho na prateleira da despensa. Sou perfeccionista no que toca à abertura de embalagens de abertura fácil, confesso.

Contudo, é fácil perceber que quem desenha pacotes de leite já percebeu o flagelo da abertura fácil. Para mim, as tradicionais embalagens de leite com abertura fácil eram (e são) abertas com uma faca. Já vi várias pessoas a fazer o mesmo! Outras, optam pelo esteticamente mais bonito e usam uma tesoura. O suposto seria abrir com a mão, daí ser baptizado como “fácil”. Mas não é! Pelo menos não para mim, que acabo sempre a sujar qualquer coisa.

Hoje, abrir um pacote de leite é realmente fácil. Quase todas as marcas perceberam o trabalho que estavam a dar às pessoas e mudaram para as tampinhas. Tal como a água, abre-se e fecha-se de forma simples e eficaz. Pode ser uma questão higiénica, mas eu prefiro pensar que é mesmo para nos deixarem ser mais preguiçosos, visto que não precisamos de faca, nem tesoura, e até podemos beber do pacote para nem sujar canecas.

Quero concluir com uma ideia dirigida a pessoas que lançam produtos: promover formações intensivas sobre a (talvez nova) abertura fácil, com demonstrações e tudo. Façam isso através de anúncios, ninguém precisa de sair de casa para saber abrir um pacote de bolachas.

Madalena, amante de segunda

Madalena é apaixonada pela vida, mas não percebe o quanto gosta de uma segunda-feira. É um dia como outro qualquer, tem 24 horas, mas carrega uma panóplia de desafios e sonhos por explorar. Nem os amigos compreendem tal fascínio, mas o dia que muitos pintam de cinzento, Madalena carrega-o de arco-íris.

No sábado, Madalena acorda e a primeira paragem que faz é a balança, que a espera tranquilamente no canto da sua casa de banho. Os números são simpáticos, mas afastam-se ligeiramente do valor pretendido. Eis que surge a primeira decisão: “Vou ter mais cuidado com a alimentação, vou fazer dieta. Mas hoje é sábado, é melhor aproveitar o fim-de-semana! Começo segunda para a minha semana começar bem.”

Depois de satisfeita com um bom pequeno-almoço, Madalena vai fazer as compras para preparar a sua nova rotina alimentar. Legumes e vegetais, carne e peixe, e o novo livro de receitas saudáveis que lhe capta a atenção. Madalena gosta de bolachas, gosta de snacks entre as grandes refeições e, por isso, procura a melhor “rua” do supermercado: “Bolachas e afins”. A escolha é difícil, mas a jovem está confiante, e pega SÓ  em produtos nutritivos, com poucas calorias e, talvez (rezando para que não), fracos de sabor.

Madalena vive no 2º andar de um prédio sem elevador, coisa que não a assusta. Mas, hoje, a rapariga não conta só com o seu próprio peso, leva também três sacos pesados. Naturalmente, e com algum esforço, chega a casa, pousa os sacos, e deita-se para recuperar o folgo. Está muito mais cansada do que era suposto estar. Sente-se fraca, sente-se frágil. Surge, assim, nova decisão: “tenho de começar a fazer exercício. Até parece mal cansar-me com tão pouco. Começo na segunda! Descanso no fim-de-semana para estar bem preparada na segunda.”

Hoje é segunda-feira, Madalena acorda e faz tudo aquilo que tinha prometido, faz tudo aquilo que queria fazer. Madalena sente-se feliz, pois cumpriu todas as suas promessas. Acaba o jantar e pensa: “Vou comer um gelado, eu mereço.” E, de repente, a promessa fica desfeita, pelo menos parte dela, mas Madalena contínua feliz. Hoje é quarta, ontem foi terça, e Madalena esqueceu-se que já tinha triunfado no inicio da semana. Semana atarefada, como sempre, e os dias passam até que chega sábado. Acorda, levanta-se, pesa-se e pensa: “Vou ter mais cuidado com a alimentação, vou fazer dieta. Mas hoje é sábado, é melhor aproveitar o fim-de-semana! Começo segunda para a minha semana começar bem.”

A Madalena não sou eu, mas às vezes sou. Serão poucas? Serão muitas? Se calhar, #somostodosmadalenas !