Contra Mim

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Olha uma nova crónica.
Não sei se me apetece ler.
O título é desinteressante
E eu tenho mais que fazer.

Para ler é preciso atenção
E eu estou muito cansado.
Nem sequer vou fazer jantar,
Compro antes um frango assado.

Quero ver filmes e séries,
Não me deixes em dilemas.
Tenho pouco tempo livre
E nem gosto de poemas.

Não preciso de me justificar,
Eu faço o que eu quero.
Não mandas em mim,
Vou comer um Ferrero.

Eterno “Papa-Bolachas”

A gula por bolachas
Parece não ter fim.
Olha ali tão boas,
Encontrei as Chiquilin.

Subo para a balança,
E o meu coração dói.
O melhor é ir comer
Mais uma Chips Ahoy!

Vou ganhar uns quilinhos,
Devia ter mais cautela.
Mas como posso resistir
A uma colher de Nutella?

Romeu e Julieta dos tempos modernos

Todos os dias, desde que acorda até adormecer, o coração de Romeu palpita de amores. Louco é esse sentimento que o faz levantar da cama feliz, ansioso por mais um dia. Tal como no romance de Shakespeare, também este Romeu sofre por amor, mas sofre menos porque os tempos são outros e existem mais distrações.

A melhor parte do dia de Romeu é fazer a sua pequena rotina dos dias úteis, especialmente a parte daquele percurso a pé que o distancia do trabalho. A meio do caminho está um pequeno supermercado, sempre de porta aberta com vista privilegiada para a única caixa registadora do estabelecimento. Lá, nesse pequeno cantinho, mora o seu maior amor, a sua “Julieta”.

Sempre que se aproxima da porta, Romeu abranda o passo e vai, pé-ante-pé, sorrindo lá para dentro. Sem a coragem de dar o derradeiro passo, o sorriso fica tímido e nunca tem resposta. Do outro lado, a menina ignora e fica concentrada na sua função. Mas Romeu não desiste pois, mais tarde ou mais cedo, aquela menina não resistirá ao seu encanto.

Por vezes, o amor é incompreendido e acaba por nos levar a fazer as coisas mais impensáveis quando menos esperamos. Foi o que fez Romeu. Passavam exatamente 23 dias desde que trocaram o primeiro olhar, 23 dias desde que se deixou apaixonar. Determinado, o jovem decidiu que hoje seria o dia de declarar todo o seu amor.

Apaixonado, de coração palpitante, Romeu entra na loja a toda a velocidade e, sem pensar duas vezes, atira-lhe os lábios com todo o entusiasmo. A menina fica surpreendida, imóvel, mas deixa-se derreter pelo seu encanto. Parece um final feliz, mas não. Romeu tinha-se apaixonado por uma pequena tablete de chocolate que, apaixonada ou não, não teve a mínima hipótese. Satisfeito, seguiu o seu caminho de coração vazio, mas com a barriga cheia.

Martim e a (des)motivação do chocolate

Um dia, como quase sempre, Martim está deitado no sofá a ver televisão e pensa: “Ainda falta tanto tempo para o jantar, se calhar vou fazer exercício.” Feliz com a decisão, levanta-se decidido e vai ao quarto trocar de roupa. Martim gosta de exercício e de planear um bom treino, focado nos objetivos que quer atingir.

No quarto, entre calções e t-shirts, escolhe algo com estilo. Martim não vai sair de casa, mas estar bem vestido é meio caminho andado para um bom treino. Ténis calçados, começa o aquecimento. “Fogo, esqueci-me de pôr música!” Liga o computador, abre o Spotify e vai pesquisando como se a primeira música fosse o melhor tónico para começar. Entretanto, 15 minutos depois, a música está escolhida.

Volta ao aquecimento, feito mal e porcamente, porque a vontade não é assim tanta. “Bem, hoje vou começar de cima para baixo e fazer umas flexões.” Martim gosta de ser organizado, por isso, decide procurar uma boa aplicação de flexões, que organize as séries e os dias em que as deve fazer.

A internet é um sítio maravilhoso, cheio de gurus de fitness que criam sites e aplicações para quem tem preguiça de perder tempo a pesquisar. Contudo, Martim perde mais 15 minutos na procura da aplicação perfeita. Confia no seu instinto, faz o download e o registo. Está na hora de começar!

A primeira gota de suor é derramada por Martim e, com um total de 40 flexões, sente que fez um esforço heroico, iludido a pensar que, de repente, está a ficar em forma. Entusiasmado, vai buscar os halteres para mais uns exercícios. Antes de começar apercebe-se que tem sede. Falta a garrafinha de água ao seu lado.

Martim não bebe água da torneira. Vive tão perto do mar que as águas quase se confundem. Vai à despensa à procura de uma garrafa, abre a porta, e vê uma bonita e atraente tablete de chocolate. Sem querer, sorri. Pega na tablete, na água e vai para o quarto. “Foca-te no treino Martim! Se correr bem, no fim podes comer uns quadradinhos”, pensa ele, tentando-se motivar.

Passou uma hora e Martim ainda só fez 40 flexões. Por muito que se tente concentrar, a tablete é a única coisa que brilha no seu horizonte. Olha para o relógio, faz contas e pensa: “O jantar está quase aí e o chocolate é um excelente aperitivo. Por hoje foi bom, amanhã volto mais forte.” Mas não, amanhã o Martim não volta mais forte, nem mais fraco, volta sim, mais gordito.