Contra Mim

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Olha uma nova crónica.
Não sei se me apetece ler.
O título é desinteressante
E eu tenho mais que fazer.

Para ler é preciso atenção
E eu estou muito cansado.
Nem sequer vou fazer jantar,
Compro antes um frango assado.

Quero ver filmes e séries,
Não me deixes em dilemas.
Tenho pouco tempo livre
E nem gosto de poemas.

Não preciso de me justificar,
Eu faço o que eu quero.
Não mandas em mim,
Vou comer um Ferrero.

Um Pequeno Café Pequenininho

Gosto do jeito carinhoso com que se fala de coisas pequeninas, mesmo que não o sejam. Afinal, somos um “pequeno” país na ponta da Europa, mas que está recheado de coisas boas para ver e fazer. Portugal é como uma boa bifana de roulotte, o pão é sempre pequeno demais para o tamanho do bife. Seja para quem visita Portugal ou para quem pede a bifana, o resultado é sempre positivo.

Estava eu na fila para pedir um café quando ouço, “são só dois cafezinhos, por favor.” Até nestes pedidos gostamos de ser pequenos (ou será carinho para com desconhecidos?), mas é fácil perceber porquê. Alguém já ouviu alguém chegar a um estabelecimento e dizer “quero um cafézão, se faz favor”? Parece um pedido meio bruto.

Primeiro, é difícil dizer esta frase sem imaginar que é alguém com uma voz grossa, pelo menos é assim que eu imagino e soa-me sempre a um cenário bem engraçado. E será que essa pessoa seria levada a sério? “Quero um croissant misto e um cafézão para levar.” Parece giro, mas improvável. Talvez teste esta ideia um dia.

Talvez seja um problema no nosso discurso. Queremos ser grandes e mostrar a nossa grandeza enquanto povo e país, mas não abandonamos os diminutivos. Porquê? Porque é carinhoso e dá um quentinho no coração. A verdade é que os “-inhos” no fim das palavras ficam melhor que os “-ãos”. Por exemplo, ainda no café, pedem um copinho ou um copão? E não vale responder “copo”!

Martim em apuros, um sono que o abraça

Martim é dorminhoco, mas hoje não dormiu muito. Também não dormiu pouco. Enfim, dormiu horas suficientes para não ter olheiras, mas insuficientes para conseguir pensar alguma coisa de jeito durante o dia. “Se ainda estivesse na escola, hoje fazia como a Ana Moura e só cantava que “é dia de folgaaa!”. Infelizmente, não é dia de folga, nem feriado, nem fim-de-semana. Triste sorte, é dia de trabalhar.

Martim e a sua enorme vontade de voltar para a cama saem de casa. Em dias como este, as 3 primeiras horas do dia passam rápido, mas às 10 da manhã o apocalipse instala-se. O sono volta com toda a força e ataca os olhos. Martim tenta fixar o olhar no ecrã do computador, mas os olhos insistem em fechar. Abre e fecha, abre e fecha. Que luta intensa! Para quem está de fora, vai pensar que Martim tem pó no olho, mas não, é apenas muito sono.

Com muito custo, Martim vence esta primeira batalha. Os olhos estão abertos, mas o sono continua lá. De repente, Martim vê dois ecrãs, o sono voltava a atacar. Se já é difícil manter o olhar fixo enquanto se pestaneja loucamente, imaginem o que é tentar focar dois ecrãs ao mesmo tempo. Impossível! “Isto não pode ser assim, eu não vou adormecer aqui!” Para contra-atacar esta nova vaga de sono, Martim levanta-se e vai beber café.

O café está quentinho e Martim aproveita para aquecer as mãos. Mesmo em dieta, Martim despeja um pacote inteiro de açúcar. Nunca se sabe, pode ser que também dê alguma energia.  Como se fosse um shot, o café está bebido, a energia está reposta e Martim volta ao trabalho. Não está cheio de energia, mas talvez chegue para aguentar o dia.

Martim senta-se a “dar no duro” e tenta pôr prego a fundo nas suas tarefas. Toda esta energia esgota-se numa hora e Martim começa a sentir a cabeça pesada. Assim do nada, todo o corpo são plumas, mas a cabeça é chumbo. Como se estivesse a curtir um bom Rock’n’Roll, Martim deixa cair a cabeça e levanta-a de imediato. Martim tinha adormecido por segundos. Felizmente, ninguém reparou.

Esta luta não tem fim, por isso, Martim decide ir até ao café comer qualquer coisa. Talvez uma chapada de vento lhe roube o sono, talvez uma tosta mista o faça esquecer que tem sono. “Este dia vai ser tão longoooooo!”

Poema de Outono

Não tenho nenhum gorro
Para suportar este frio.
Tenho de ir às compras
Porque tenho o armário vazio.

Não sei que vista
Em pleno Outono,
Nem consigo decidir
Por ter tanto sono.

Abre o olho, rapaz,
Está um lindo dia de sol,
Mas não te esqueças de vestir
Um casaco e um cachecol.

Na rua sopra um vento
Que arrepia a espinha.
Uma mulher dá um espirro
E eu digo “Santinha”!

Martim e um sonho demasiado real

É terça-feira e Martim dorme profundamente. É a melhor parte do dia! Uma parte reservada a sonhos ou a um vazio branco sem preocupações. Só que tudo o que é bom tem um fim, e como Martim não merece excepções, o despertador toca. Está na hora de largar o “lugar mais perfeito e confortável do mundo” e começar a rotina de todas as manhãs.

Sempre num ápice, Martim toma banho, veste-se e alimenta-se. A ordem nem sequer é importante, o que interessa é ficar tudo feito. Martim prepara-se ao sabor do vento e todos os dias são diferentes, depende sempre da fome com que acorda. Assim, todos os dias são diferentes, tal como Martim gosta.

Para quem gosta desta adrenalina matinal de tomar decisões quando acorda, adormecer mais 15 minutos pode ser estimulante. Especialmente porque, nestes casos, já não há tempo para as 3 actividades mais importantes da manhã e é preciso fazer escolhas. Como andar nú ainda não é socialmente aceitável, Martim opta por não tomar banho uns dias e, nos outros, opta por tomar o pequeno almoço fora.

A correria chega ao fim e Martim estás prestes a sair de casa. Pega nas chaves do carro, de casa e vai embora. A viagem de carro é sempre tranquila, mas, de repente, toca o despertador. Era só um sonho, daqueles que enganam a própria realidade. Martim não tinha adormecido, estava a acordar na hora certa, apenas mais confuso do que é normal.

“Mas eu já me tinha vestido? Como é que tenho fome se já tomei o pequeno-almoço?” Dúvidas existenciais causadas por este mini-pesadelo são muito desgastantes e Martim, cansado, faz a rotina toda novamente. Pelo menos uma coisa será mais fácil. A indumentária para o dia já foi escolhida em sonhos, e nem ficou nada mal, por isso, mais vale confiar no seu bom gosto sonhador e não perder mais tempo.

Alegria no trânsito. Será possível?

Não sei quem manda naquilo, mas acho que se está a perder uma oportunidade incrível de animar as pessoas logo de manhã (à tarde também é capaz de resultar, mas a verdade é que nem tomo muita atenção. Ao quê? Gostava muito de saber o nome, mas não faço a mais pequena ideia. Vou tentar explicar e acredito que todos vão perceber. (Quem souber do que falo pode sempre comentar e ensinar-me algo hoje.)

Estou a falar daquelas espécies de televisões de estrada que têm frases como “Circule com Moderação”. Acho que é fácil perceber o que do que falo. Para mim, que faço a IC19 todos os dias, estou sempre a pensar no fraco aproveitamento que essas coisas têm. Agora que penso no assunto, talvez se chamem “placas digitais informativas”, mas isso não interessa.

O importante é que, a maior parte das vezes, a mensagem que escolhem não é interessante. Os entendidos falam do trânsito como quem fala da flora intestinal e dizem sempre que está “muito congestionado”, que é a mesma frase que alguém que comeu 3 pratos de feijoada à trasmontana diz meia hora depois de comer que nem um alarve e ouve a sua barriga a roncar. Mas voltemos à razão de existência deste texto.

O trânsito está parado, ninguém se mexe, e a placa diz “trânsito lento, circule com moderação”. Amigos, que o trânsito está lento já eu sei. Eu também sou o trânsito. E que tal se, em vez disso, a mensagem fosse “Bom dia estimados condutores, hoje vai estar um belo dia!”, “Bom dia! Hoje vão estar 23º em Lisboa e céu nublado.” Isto sim, era serviço público e algo que valha a pena ler. É claro que, quando existe um acidente, vale a pena dizer.

E se os donos dessas televisões tiverem algum sentido de amor? Isso é que era giro! Todos os dias, uma pequena piada, uma frase inspiradora, algo que colocasse um sorriso em quem vai passar uma meia horinha a estragar a embraiagem. Era simpático não era?

Já agora, e só para finalizar em relação ao IC19, não vale a pena dizer “Trânsito Lento Paiões/Cacém – Amadora/Lisboa”. Basta lá de manhã, assim entre as 7h e as 10h e percebe que será sempre assim para o resto da vida. Bem, e enquanto não existe solução para isto, talvez vá comprar um helicóptero.

Estômago à prova de bala #2

Para um almoço normal em grupo, é sempre necessário arrastar algumas mesas e cadeiras. Trabalho feito e as mesas estão brilhantemente alinhadas. O brilho aqui referido é uma quantidade palpável de gordura que se espalha por cada mesa com um bonito quadro de linhas e manchas desordenadas. Provavelmente, também as cadeiras respeitavam este padrão, mas depois de estar sentado, já ninguém queria descobrir.

Até que chega a empregada alegre com as primeiras toalhas de papel e os primeiros talheres. Como bons cidadãos, cooperámos e ajudámos na colocação de tudo e não demorou muito até ver que, em alguns talheres, claramente mal lavados, existia alguma gordura. Talvez mal lavados não seja a expressão certa porque, quando se encontrar alguns restos de comida nos garfos, talvez não tenham sido lavados de todo. Ainda assim, já eram 14h e a fome ouvia-se em cada barriga.

Depois dos primeiros talheres colocados, a empregada encontra o senhor que ainda está a fumar e trocam um pequeno diálogo. É sempre importante referir que, o senhor que “degustava” calmamente o seu cigarro enquanto esperava ser atendido, tinha ao seu dispor um boião de polpa de tomate. Se isto é estranho, o que dizer do conteúdo do boião? Era uma mistura que não me lembro de ver, mas pela expressão que fazia ao saborear a polpa de tomate com vinho tinto, só pode ser bem gostoso.

Empregada: Não pode fumar aqui, até está ali um sinal.
Senhor: Finalmente, reparou. Agora, já fumei o que tinha a fumar. Se tivessem uma mesa lá fora, isto não acontecia. (e envia a beata para o rés-do-chão)

Sem saber o que dizer, a empregada desce para ir buscar mais talheres e copos. Já o senhor ficaria sentado mais uns 5 minutos até ir embora. Uma coisa é certa e dou-lhe razão nisso. Uma mesa lá fora teria sido incrível, mas com isso, nunca ninguém saberia deste incrível filme que vivi.

Juntamente com os restantes talheres, chegam os copos e nós fazemos os nossos pedidos. Sobre os copos, apenas digo que pertenciam ao mesmo conjunto, visto que mantinham o padrão das mesas e cadeiras. Enquanto se esperava pela tão aguardada comida (que demorou um bom bocadinho) deu para olhar bem para o espaço em redor.

A porta do quadro elétrico aberta é algo que se estranha pouco, mas uns vidros tão sujos são difíceis de ignorar. Digamos que a única comparação que consigo encontrar é imaginar o vidro de um carro que andou em terra batida, ficou cheio de pó e foi “lavado” com uma chuva miudinha que durou apenas dois minutos. Dá para visualizar? Eu preferia comprar um vidro novo do que tentar limpar aquilo.

Mesmo assim, estava muito otimista e ansioso pelo meu Bacalhau à Braga. Ou isso ou tinha mesmo tanta fome que estava capaz de comer cartão. Nunca percebi esta expressão, nem nunca provei cartão. Será bom? Talvez não.

(Ler o Primeiro Episódio desta magnífica história.)