Em 2022, a frase “o trânsito hoje está caótico” não tem grande força. “Caótico” é uma palavra que já não pode ser utilizada em coisas mundanas quando vemos de perto o caos que uma pandemia e uma guerra trazem ao mundo. Contudo, são as coisas mundanas que nos ajudam a sobreviver ao dia-a-dia enquanto esperamos, mais uma vez, um final feliz. É por isso que, no trânsito, todos “piscamos” de forma “caótica”.

Todos lemos o Código da Estrada, mas tal como num exame de Português, é tudo uma questão de interpretação. O resultado? 3 grandes correntes do “pisca-pisca” e cada uma delas é o reflexo da personalidade de quem o pratica. Aqui não há julgamento do pisca alheio, mas há (leves) acusações.

Os “Putins do Asfalto” são os automobilistas que desconhecem a existência de piscas, de regras, e são vulgarmente brindados com um “deves achar que a estrada é toda tua”. Na verdade, eles conhecem isso tudo, mas preferem ignorar criando eles próprios as suas regras. Ultrapassagens, mudanças de direção, e todas as atividades pelas quais os piscas foram inventados são, assim, vulgarmente desprezadas à mercê das suas vontades.

Saindo da anarquia, aparecem os “Multitasking“. Parece um elogio, mas não é, mesmo sendo (muito) mais ponderados que os citados anteriormente (também não é difícil). “Multitasking” é fazer várias tarefas ao mesmo tempo, ou seja, é a categoria destinada a quem “pisca com o volante”. Que é como quem diz, coloca o pisca ao mesmo tempo que começa a virar. Se avisou os outros condutores? Sim, mas contínua a ser um registo meio autoritário de “é só para saberes que me vou meter mesmo à tua frente para furar a fila e não há nada que possas fazer para o evitar, mas tenho o pisca ligado, okay?”

A terceira e última personalidade, ou melhor, categoria chama-se “Não parto um prato”. Tal como o nome indica, respeitam na íntegra o código da estrada na utilização dos piscas. São condutores exemplares que, aos olhos de quem anda todos os dias na estrada, merecem uma condecoração oficial pelas boas práticas em prol da sociedade. 

E os 4 piscas que as motas fazem para furar o trânsito? E os 4 piscas que os condutores fazem estacionados em segunda fila para avisar que são só 5 minutos? E os 4 piscas para avisar que há trânsito inesperado aqui? Vou ser sincero, tenho mais questões que respostas, e os 4 piscas são todo um outro mundo, também ele caótico à sua maneira.

Tal como escrevi no início, não estou aqui para julgar ninguém. Até porque, aqui que ninguém nos ouve, eu sou estes todos juntos atrás do volante. Sou muito pouco “Putin do Asfalto” (felizmente),  mas não tenho lata para dizer que “Não parto um prato”. Falho piscas como quem se esquece de um aniversário importante, só às vezes. E vocês, piscam muito?