“Mas quem é que ainda compra agendas?” Pergunto eu sempre que vejo mais um lançamento, da mais simples à mais artística, sempre sem perceber o encanto. Se marco consultas numa APP e recebo lembretes via SMS para não me esquecer do dia, hora e local onde me devo apresentar, de que me serve uma agenda? Com sorte, o meu calendário do telemóvel também me lembra da consulta, cuja fatura chega por email. Com tudo digital, para quê uma agenda em papel? As árvores merecem este destino?

Sempre me senti hipócrita nesta questão e acredito que não estou sozinho. Evito agendas, nunca tive uma, mas também porque eu não sou um ser assim tão social para encher 365 folhas de pequenas notas e apontamentos. Já no que toca a livros, que no formato pouco mudam mas as folhas já vêm escritas, apanho-os todos e um dia vou construir uma biblioteca. As árvores dão agendas, dão livros, dão papel higiénico, mas nem quero entrar por aqui. Uma coisa é certa: se antes discriminava as árvores que faleciam por agendas, hoje, são elas a quem dou a minha medalha.

Uma agenda é um diário para adultos que, com compromisso, vai dar um conjunto dos melhores momentos do ano. Fica a ideia: para além de marcar jantares, consultas, concertos e viagens com antecedência, vamos também deixar lá uma nota no dia seguinte que resuma o momento. Quem sabe até deixar só uma foto colada na página. Sem esforço, estamos a construir a futura nostalgia de recordar bons momentos. Uma agenda, no final do ano, é um álbum de recordações moderno, uma evolução natural daqueles álbuns de fotos que avós e mães fizeram até terem Facebook.

As fotos foram do álbum para as clouds da vida e, hoje, são a inspiração para uma das maiores mentiras que vamos dizendo a nós mesmos “tenho de imprimir as fotos daquela viagem, ainda estão todas no telemóvel”, mas infelizmente, só aprendemos a lição quando uma qualquer avaria digital nos faz perder tudo. É por isso que eu acho que uma agenda é o futuro. Também foi o passado, mas perdeu-se e ficou apenas para um pequeno nicho de pessoas que preserva a organização que uma agenda oferece.

Não sei se convenço alguém a comprar uma agenda com esta crónica, mas eu já comprei para mim. A minha é a Agenda Solidária da Animais de Rua, essencialmente pelo contexto solidário e por ter ilustrações e outras artes de artistas portugueses que gosto lá pelo meio. Eu sei que, o mais provável, é deixar a agenda numa gaveta esquecida logo na terceira semana de janeiro. Ainda assim, já que é para tentar criar uma memória bonita, que seja também solidária.

Não sei se agendas dão bons presentes de Natal, mas não custa tentar. Até pode safar um jantar de colegas com amigo secreto incluído, especialmente se o sorteio nos der um colega que mal conhecemos ou nem gostamos assim tanto. Uma coisa é certa, oferecer a agenda solidária da Animais de Rua pode não agradar nem mudar nada na vida de quem a recebe, mas vai sempre mudar a vida de uns quantos gatos.