Há um encanto especial em ter um mealheiro desde que se é criança. Somos educados pelos desenhos animados que retratam sempre o mealheiro como sendo um porco com uma ranhura nas costas para enfiar moedas. E para tirá-las? Enquanto os cartoons apostam em martelos ou em atirá-los ao chão, na vida real todos andam com uma tampa no peito. São uma espécie de tetas que, na falta de leite, esguicham dinheiro.

A minha preocupação não é tanto com o óbvio de ser perigoso ensinar as crianças a usar martelos ou a partir porcos no chão. Na verdade, tenho 4 mealheiros e apenas um se pode partir. Na pior das hipóteses, os outros só se amolgam. Tenho 4 mealheiros, mas todos vazios. E porquê? Porque o dinheiro é cada vez mais digital. Já o era antes da pandemia entrar em campo, fator que só veio acelerar o processo. Toda a minha capacidade para gerir finanças pessoais começou num porco-mealheiro. E agora que o dinheiro já não é físico, como vamos ensinar as nossas crianças sobre a importância de saber poupar para mais tarde comprar o que queremos?

E não só! Perder o dinheiro físico é também perder um momento de alegria sempre que se abria o mealheiro para ver uma cascata de moedas a deslizar sobre a mesa. Mesmo que todas as moedas fossem de 1 cêntimo, a felicidade está na quantidade e quantas mais melhor. Depois deste momento, sonhamos que, se guardarmos mesmo muitas moedas, podemos ser o Tio Patinhas que mergulhava no seu cofre. Sou um miúdo de 90 que já fugiu aos vintes, mas que continua a ter este imaginário bem presente.

Reconheço que, para as mais pequenas, as notas são desinteressantes e o que interessa é ter moedas. Isto pode ser a salvação para o futuro que, ainda assim, não deixa de ser uma preocupação. Bancos, governos e amigos, estimulam a utilização de cartões e de pagar com o telemóvel. Ou com o relógio. Ou com qualquer outra forma digital em que não exista dinheiro físico. Em que as mãos não se toquem. E assim temos menos trocos. Temos menos moedas. E os mealheiros continuam tristes, vazios.

Por outro lado, não ter trocos é sinónimo de higiene. Sempre me disseram para lavar as mãos depois de mexer em dinheiro. Porque o dinheiro é sujo e anda de mão em mão. Especialmente as moedas. Legal ou ilegal, o dinheiro é porco e guarda-se em porcos, que também são conhecidos por serem sujos. Isto faz estranhamente sentido, mas agora que temos as mãos mais bem lavadas da história, em que animal guardamos o dinheiro?

Eu sei a resposta. Guardamos o dinheiro nos bancos, que controlamos com as mãos, pelo telemóvel onde instalámos as várias apps para gerir a nossa vida financeira. Não quero ser tendencioso, mas o dinheiro continua a ser sujo. Está cientificamente provado que o telemóvel é dos objetos mais sujos com o qual contactamos diariamente. E mesmo com as mãos limpas e o ecrã do telemóvel desinfetado, os ícones atribuídos à poupança continuam a ser porcos, literalmente.

Não sei se há volta a dar ou se ficaremos num eterno impasse. Apenas sei que o conceito continua a ser cativante e eu próprio me sinto entusiasmado estou num local em que o multibanco não funciona. É chato ter de procurar um multibanco, mas a alegria de colocar moedas num mealheiro e de mais tarde o abrir, não tem preço.