É desnecessário ser mais um a constatar tudo aquilo em que o coronavírus é desagradável. Prefiro olhar para outro lado e ver o que este vírus traz de bom para a nossa vida. Tal como o lado negro da lua mereceu destaque num grande álbum dos Pink Floyd, também o lado menos óbvio da pandemia deve ser iluminado.

Não é sobre o ambiente, nem nada global. Para já, são mudança que nos interessam muito mais como pessoas do que para o bem do mundo, pelo menos numa primeira fase. São dois temas distintos, que podem estar juntos ou separados, que são fruto do “bicho” que anda aí no ar. Hoje, sonhamos muito mais e não é só por isso que vamos ter mais paciência na vida. Para tudo, e ainda mais para o trânsito.

Não sei se você sonhou hoje, se sonhou ontem, se não sonha ou sonha muito. Aqui, só entram os sonhos da noite e das sestas, sonhar acordado é fazer batota neste jogo. Eu sonho tanto quanto bebo, moderanamente na vida normal, e de forma exagerada na quarentena. Não devo ser o único porque há um fenómeno muito maior que beber copos de vinho em diretos de Instagram. Sonhamos mais e temos mais pesadelos. E não, a descoberta não é minha, mas sim de uns cientistas que estudam coisas. Na verdade, ninguém melhor que a TIME para vos explicar o que realmente acontece.

Do meu lado, tem sido uma roleta russa de sonhos inesperados. Na última segunda sonhei que estava num bar de música ao vivo. Não conhecia nada que não eu próprio no sonho, mas foi bom, tinha bom ritmo, no sonho e na música. A verdadeira questão é: se sonhamos mais, ficamos mais cansados ao acordar. Como é que isso se traduz em paciência?

É fácil! A vida em modo COVID prepara-nos lentamente e sem dar-mos conta. Isto sim, é uma prenda da mãe natureza. Vou comprar comida e fico na fila, vou à farmácia e fico na fila, vou a qualquer lado e fico na fila. Em pé, de máscara, a dois ou três passos de quem está a minha frente. Visto de cima, somos a nova IC19, a nova 2ª circular ou VCI, sempre com filas e engarrafamentos. E se há uma coisa que é transversal para toda a humanidade é que o trânsito e o pára-arranca nos tira do sério por termos sempre pressa de chegar não sei onde.

E agora, o que acontece? Agora, estamos 24h por dia a treinar para o futuro trânsito que vamos apanhar. Não vejo ninguém a refilar em filas de pessoas, ninguém a chegar demasiado perto, ninguém a cantar alegremente e distraído sem perceber que a pessoa da frente já avançou. Ou seja, enquanto humanos, estamos a ser “condutores” exemplares para lidar com engarrafamentos. Nunca se “conduziu” tão defensivamente neste país.

O lado bom (ou menos mau) do COVID-19O único problema continua a ser o telemóvel. Tal como no trânsito, muitos são os que aproveitam para mandar mais uma mensagem, fazer mais um scroll no Instagram, ou até um swipe no Tinder. Mas nas filas de pessoas, as mãos podem estar onde nós quisermos, e cada um faz o que quiser com elas.