Está na hora de sair. Aos poucos. Com calma. De máscara. Ah, essa nova vida, esse novo adereço que nos vai acompanhar nos próximos tempos, quem sabe nas próximas vidas. Por muito que me convençam que é para o meu bem, para o teu e para o de todos, ninguém me consola que vou perder o sorriso. E vocês também.

Sorrir é bom e há sorrisos tão bonitos que animam o dia de quem os vê. Há amores que vivem na força de um sorriso, seja ele feito de dentes bonitos ou tortos. Sorrir é o espelho da alma. É um momento feliz, mas de máscara ninguém me vê sorrir, ninguém me vê os dentes. Eu que até tenho investido algum tempo a tratar de cáries.

Não estou preparado para viver num mundo sem que alguém me diga “tens alface nos dentes”. Aquele momento em que me sinto tão envergonhado como agradecido, tudo no mesmo segundo, antes de ir ao espelho mais próximo procurar a alface com as unhas. Não, eu não faço isso à frente de outras pessoas. A quarentena tira-me muito, mas nunca as boas maneiras. E sorrir é uma delas.

Sem saber, já vou ter saudades. Das alfaces, mas principalmente dos sorrisos que me encantam. Chamem-me romântico, e talvez seja, mas tenho saudades de me deixar corar entre sorrisos desconhecidos. Aqueles que nos deixam conhecer pessoas novas, amores novos. Ser solteiro vai ser diferente e eu já estou a treinar para isso. De máscara, resta-nos sorrir com o olhar. E haverá algo mais íntimo?

Quem é que ainda se lembra da última vez que olhou alguém nos olhos mais de 5 segundos? Está difícil, eu sei, mas não está sozinho. É difícil, desconfortável e cria uma proximidade instável com quem não conhecemos. Parece que deixamos fugir os segredos, mas no mundo das máscaras, não há volta a dar. Sorrir será um ato de rebeldia, uma prova de amor tão grande como uma serenata à janela. Ainda se fazem serenatas? Bem, pelo menos são provas de amor que respeitam o distanciamento social.

No longínquo ano de 2019, a expressão “a máscara caiu” era negativa, descrevia alguém que afinal se mostrava completamente diferente do que tinha sido. Alguém “falso” ou desonesto, mas agora vai ser tão diferente. A máscara tem de cair para um primeiro beijo, depois de uma carícia de luvas na bochecha. Há que ser prudente sempre que nos desequiparmos da segurança que levamos.

A alegria e simpatia de um sorriso carinhoso pode salvar um dia mau, um dia cinzento, mas de máscara, os sorrisos escondem-se tão bem como o sol num dia de chuva. Tirar a máscara vai ser um gesto de confiança e emprestar uma luva será um ato de amor. Eu sei que é uma visão exagerada do que o futuro nos reserva, mas todos merecemos descontrair e sorrir por todos os dias bons que estão a chegar. Pode não ser a visão mais otimista, mas é romântica, e sem querer fugir a todos os clichés e arco-íris, o mundo fica mais bonito quando o amor vence. E eu tenho amor de sobra para te vencer, corona.