É um jogo, uma analogia, uma metáfora, é um título multifunções, especialmente porque esta quarentena já teve efeitos muito positivos na minha vida. O primeiro é: já não tiro macacos do nariz há mais de 1 semana. É uma vergonha ainda tirar, mas era um hábito indestrutível que só este vírus conseguiu abolir. E talvez seja o primeiro parágrafo mais deselegante na história do blog. Será?

Sou sempre a favor de aligeirar os temas, para viver 5 minutos fora da realidade e respirar fundo sem medos. Como otimista, eu não vejo o copo meio cheio, vejo o copo a transbordar e é assim que gosto de viver a minha vida, e inspirar outras. Inspirar, não no sentido literal de um “guru espiritual” ou de um “guru da tecnologia”, mas sim como transmissor de boas energias. Gosto de ver e mostrar que tudo tem um lado positivo. Tudo. Até isto.

Voltemos à minha pequena vitória. Respeito as regras de contingência e não toco na cara, e isso inclui o nariz. Não toco no nariz, não coço o nariz, nem por dentro, nem por fora. É claro que “ter o dedo no nariz” é uma atitude de criança. Nós, os adultos, temos lenços e lavatórios para fazer esta higiene. Não precisamos de “limpar o salão” manualmente. Mas a verdade é que, por muito que tenha tentado, só o COVID-19 me libertou desta angústia. Para além de não o dever fazer, nunca ficava bem visto a quem me via fazer, muitas vezes sem ter consciência de que caíra no mesmo erro.

Somos “monstros de hábitos” e não é fácil largá-los. Hoje, posso dizer que me livrei de um e este texto é a catarse perfeita, pois quanto mais escrevo, mais vontade tenho de ter uma recaída. Mas não vai acontecer, nunca mais. Muda-se o tema, mudam-se as vontades, será? E desse lado, caro leitor, já sentiu alguma diferença na sua vida? Já conseguiu (finalmente) aprender aquele instrumento musical, ler aquele livro, …, enfim, já começou a riscar coisas da lista “hoje não dá, não tenho tempo”. O tempo é o mesmo, são 24 horas, só não estávamos habituados a vivê-las entre 4 paredes. Se é o detentor de uma linda moradia, ignore esta parte das 4 paredes. Você tem muitas mais, e relva, e piscina, e um churrasco… Quarentena não são férias, mas esta descrição confundiu-me a vida.

A vida mudou, o futuro chegou. Menos quando alguém fala em “teletrabalho”, essa expressão moderna utilizada em 1980. Hoje, é trabalho remoto e estamos todos a fazer um grande teste a esta possibilidade. Todos, pessoas e empresas, somos obrigados a ser um camaleão na vida e procurar a melhor camada para sobreviver a esta pandemia. Na saúde e na economia, na cultura e no desporto, na política e nas mais diversas áreas, estamos todos à procura da nossa melhor versão. O resultado será sempre entusiasmante, para o bem, ou para o mal. No fundo, isto é a seleção natural que Darwin andou a testar numas ilhas do pacífico.

Está difícil falar de algo mais sem ser o vírus, mas é essa a minha missão. Não só por ser um grande desafio de criatividade, mas também para o nosso cérebro continuar imparável na procura de soluções, seja para o que for. Aqui, neste ponto, tenho uma pergunta para si. É como se fosse um teste ao défice de atenção com que todos lutamos: ainda se lembra como começou este texto?

Eu acredito que parte de quem abriu este artigo não chegou ao segundo parágrafo. Nem sequer quis festejar comigo uma grande conquista. Todas as razões são legítimas para não terminar de ler este texto, principalmente quando acha que já não vai aprender nada com ele, quando acha que já não vai dar volta nenhuma, nem deixar uma questão ou opinião pertinente sobre a atualidade. De que serve, então, continuar a escrever?

Apenas lanço um desafio. Falar mais sobre qualquer coisa que sobre o tema do momento. Se não existir nada de novo, não seja um loop de conversas repetidas. “Este telejornal é igual ao do almoço”, em tempos pré-corona, muitas pessoas diziam isto. Para elas, o meu apelo é simples: não se transformem nesse telejornal. Eu próprio assumo que este texto é uma semi-falha do meu desafio. Vamos tentar?

A vida contínua, a minha e a sua. Em casa,
O planeta agradece (e a maioria dos humanos também).