Andar de metro não é fácil quando não se conhece a rotina. À vista de quem não o via há tanto tempo, o metro assemelha-se a natação sincronizada do mais alto nível, quase tão bonito como o Lago dos Cisnes, ou qualquer musical muito bem elaborado.

Na plataforma, a linha amarela tenta prevenir que ninguém se magoa, mas quem respira experiência debaixo da terra sabe que apenas se trata de decoração de interiores. Nem sempre fica bem, mas isso pouco importa quando o metro chega. Ao ritmo do travão, pessoas alinham-se em perfeitas retas, à esquerda e à direita da porta, para dar passagem a quem vem de viagem. Não se é um casting secreto para as novas cheerleaders de um qualquer clube, mas se for passam todos à próxima fase com distinção.

A entrada no metro já não é tão ordeira, mas também não se exige tanta sincronia a quem não dança em full-time. Na verdade, o metro é um poço recheado de dançarinos part-time que adoram coreografias.

O metro anda e as pessoas balançam ao ritmo das curvas, acelerações e travagens. Sempre sincronizados, sempre em sintonia, Os ombros e o tronco (e as pernas de quem não vai sentado) dançam, mas o pescoço de cada um tem a sua própria festa. Concentrados no telemóvel, sempre como quem olha para o chão, milhares de pessoas fazem tudo o que conseguem por ter o problema na cervical. Saúde para eles. Salvam-se os que, à falta de melhor, olham para o vazio. Por fim, salvam-se os ávidos leitores, que passeiam livros por Lisboa, numa posição descontraidamente favorável à saúde das suas costas. (Nem sempre, mas eu estou neste grupo e acredito em nós.)

O metro parou. Mais uma estação, mais um ritual. Pé ante pé, mais rápido ou mais devagar, todos se encaminham com muita pressa para abandonar o subsolo. Em passo de corrida, como quem pratica marcha para competir nos Jogos Olímpicos, só uma coisa consegue parar esta ânsia de voltar a respirar ar puro. Todas as corridas terminam e recomeçam nas escadas rolantes. Ninguém as aproveita como escadas, ninguém sobe degraus, mas todos adoram a sua capacidade de os enrolar dali para fora.