O corpo sente os ritmos de cada batida, visualiza a harmonia de cada movimento para dançar ao som de qualquer música. Já a coordenação motora vive num mundo diferente, sempre atrasado e nem sempre é bem mandada. No mesmo corpo, duas forças lutam para uma performance do bailarino que pouco sabe sobre danças, mas que muito quer dançar.

É de noite e o fim do jantar leva o Martim para o baile, num bar onde a luz pisca e som não facilita. Mas para quê conversar com a voz se está na hora dos corpos se mostrarem? Tal como num bom ritual de acasalamento, machos e fêmeas seduzem-se mutuamente em manobras, por vezes pélvicas, de puro encantamento. Outros, apenas se esforçam por um pouco de diversão em ambiente “semi-seguro”, perto de amigos.

Martim não deslumbra, mas tem um toque de emoção nos passos que não dá. As danças do Martim só funcionam da cintura para cima. Os pés poucos mexem, apenas querem aguentar, em pé sem muito balançar. Todos dançam separados, apenas olhares de puro charme são lançados em torno de quem se quer conhecer. Dedicam-se letras de músicas, olhos nos olhos, à espera do momento certo para se verem de perto.

Em rasgos de pura coragem, jovens embalam ao som de lindas melodias e agarram quem querem conhecer para lá dos sorrisos. Martim, quase apaixonado de tanta energia trocada em olhares sorridentes, pensa e acredita que está na hora de dançar juntinho. Na sua cabeça, dois cenários se iluminam.

O primeiro traduz-se numa dança de químicas atraentes a roçar o sensual sem ninguém se roçar assim tanto. O segundo, mais simples, mais verdadeiro, tem o Martim, que subtilmente avança para a menina ao ritmo da música, desejoso de bailar com ela. um dois, um dois, três passos sincronizados e, ao terceiro, a coordenação fica cansada e acabam os dois no chão. “Não é que eu não queira bailar contigo deitado, mas não me consigo concentrar se quando a música é reggaeton.”