Ostento uma farta cabeleira que já foi loira e da qual tenho uma pequena paixão. Não que seja comprida, nem sequer faço rabos de égua, mas onde há, há com fartura. Antevejo um futuro mais triste, pois a minha natureza caminha lentamente para a criação de um heliporto na nuca que, espero eu, apenas servirá de apoio a pequenos helicópteros. Rezo, todos os dias, para que não seja um futuro aeroporto (até porque esse vai para o Montijo), mas de ter o espaço ideal para um mitra. Adorava saber para onde foi a vossa cabeça depois desta palavra (o meu pensamento também seria macabro), mas para si leigo leitor, é o chapeuzinho do papa.

Cortar o cabelo, para mim, é dramático. É um medo incontrolável de me cortarem demasiado cabelo que nunca mais voltará. Lógico e racional? Não, claro que não, o que seria se eu fosse racional? Ainda assim, quase trimestralmente, vou torturar a minha alma ao espelho.

Sento-me na cadeira e, com ou sem lavagem, a minha cara tranca numa feição suspeita de quem se sente vazio. Surge a pergunta “como vai ser?”, que não tem resposta. Eu sei lá. Quero cortar o cabelo, não muito, nem pouco. Escadeado, seja lá o que isso for, é uma palavra gira e já me saíram bons penteados com essas indicações. Mesmo a mostrar fotos, nunca fiando no resultado final, como se quem me pega no cabelo fosse eu próprio.

Até aqui, vou considerar que é uma experiência “normal”. Felizmente, subo de nível na companhia da minha querida e estimada miopia. Nem sempre, nem nunca, nasce a pergunta depois de apanhar uns quantos cabelos: “está bom assim?” Por dentro, o meu coração chora, na face vive uma expressão sem expressão que diz, “sim, está bom.” Mal sabe esta triste mulher ou homem, que eu já nem foco bem esta distância, mas pela vergonha e pânico que sinto, apenas um tímido “sim” me foge da boca.

Em 10, 15, quem sabe 20 minutos, tesouradas frenéticas desfiam-me o fino e frágil cabelo. A expressão que a minha face perdeu, foi de férias. Agora, e por escassos momentos, quem vive neste corpo é uma alma amedrontada pela vida, se a vida for apenas cortar o cabelo.

Os minutos seguintes são indescritíveis à sua monotonia. O final, esse grande final, chega com uma nova pergunta que a minha miopia me faz responder de forma politicamente correta, da forma mais convincente que sei, puxando dos galões que um dia me guardaram no teatro. “Está bom?” O trauma está vivo, seja qual for o resultado. É incontrolável e esconde-se sempre atrás de um “sim, está bom”. Às vezes, excedo-me na minha análise míope do cabelo que me ficou e digo “sim, está ótimo.” Eu sei, talvez seja um exagero, mas é uma forma de me descontrair.

Regresso à tranquilidade de forma muito natural, em menos de 1 hora, mas desta vez com uma última surpresa. De calças rasgadas estou sentado, vestido de capa negra cheia de fios da minha história à espera de serem sacudidos. A capa é retirada, sem a convicção que se exige, como se de um truque de magia se tratasse, e deixa que cabelos deslizem rumo aos meus joelhos. Refugiam-se pelas pernas abaixo, perto de outros tantos pequenos cabelos vivos e agarrados à minha pele. Quem sabe, encontrarão uma segunda oportunidade para serem felizes.