Peço desculpa pela minha desculpa, mas tenho me desculpado demais. Vivo cheio da culpa que nem sonho ter, mas desculpo-me por toda a culpa que não sinto. Quando estou sentado numa cadeira, em qualquer sala de espera, há sempre alguém que me beija o pé. Não com os lábios, claro, é apenas uma metáfora para a atração que o meu pé parece ter.

O que digo eu quando isto acontece? Desculpe. Desculpe por ter colocado o meu pé no seu caminho, quando nem sabia que conseguia passar tão perto de mim. Feliz sou eu que me desculpo pelos encontrões que levo, do ombro a ombro que implica andar na rua.

Não dou, nem gosto destes contactos involuntários, mas desculpo-me por todos eles, quando raramente são provocados pelo meu corpo. Contudo, acho que tenho um corpo provocatório quando sinto que todos se esbarram em mim, como ímans no frigorífico que sou. O mais belo desta analogia é que, tanto eu como o frigorífico, partilhamos o mesmo tom de pele.

Fosse este o meu único problema linguístico e estaria bem mais feliz, mas não. Desculpo-me tanto que agradeço em demasia. Obrigado, obrigado, obrigado. E por isto peço desculpa, mas o texto do obrigado revela o excesso de simpatia que partilho com quem nada faz por isso, tal como me desculpo pela culpa que não carrego.

Desculpe meu leitor, mas agradeço a sua leitura.