Querido diário, hoje foi o meu melhor dia aqui no espaço, finalmente algo para me orgulhar deste tempo imenso que aqui estou, sozinho, literalmente com os pés nada assentes na terra. A vida de astronauta é dura. Não fazia ideia. Para ser sincero, também não fazia ideia que, aos 37 anos, voltaria a ter um diário. Não sei se tenho vergonha ou orgulho, mas estas folhas devem ter um valor especial para um qualquer leilão. Morto ou vivo, é um diário do outro mundo. Na verdade, não fui a mundo nenhum, mas não faz mal.

Voltando ao que interessa. O meu dia foi tão bom, o melhor, talvez perfeito. Aqui em cima já perdi um pouco a noção do que é a perfeita felicidade de um dia. A terra em tantos fusos horários, mas não aceito nenhum. Quando acordo, faço reset no meu cronómetro pessoal.

Acordei, feliz e contente. Pela primeira vez, sei que não me babei. Normalmente, acordo e vejo traços de baba a flutuar. Se virar a cara na almofada para acordar em baba é o nível 1, baba a flutuar é certamente o nível dois. Mas nada disso aconteceu. Hoje, tinha tudo para correr bem.

Desde que aqui cheguei, tenho guardado os melhores comprimidos de comida para dias especiais, ou finais. Pequenas vitórias. E hoje, impulsionado pela primeira pequena conquista, comi uns ovos estrelados. O sabor continua a ser uma desilusão. Não passa de um comprimido, mas com imaginação forte, por momentos estive sentado a tomar um pequeno almoço no hotel.

Agora sim, o grande highlight. Aquilo que mal podia esperar para contar a toda a gente com quem possa falar. VI UMA ESTRELA CADENTE! Foi tão bonito, foi indescritível. Foi magia. Na angústia de quem vive na cidade, a poluição luminosa apaga todos os traços de magia celestial, foi preciso subir para lá das nuvens, ficar perto da lua, para deslumbrar a mais bela chuva de estrelas. Hoje foi bom, hoje vou dormir feliz.