O rapaz desta estória bebe água, muita água, como se não houvesse amanhã. E não é só porque faz bem e é recomendado, mas também porque é a sua bebida preferida. Para todo o lado que vai, a sua garrafinha acompanha-o. Não há onda de calor que seque o Martim.

Lá vai ele, pronto para mais um dia, bem hidratado como só ele sabe, ignorando a falta de bexiga que tem para absorver tanta água. Um dia, tal como acontece em tantos outros, a bexiga está cheia e Martim esperneia de vontades. Vai no carro, a conduzir rumo a uma entrevista de trabalho e nada pode fazer. Em qualquer ocasião, é sempre bom causar boa impressão e chegar com as calças encharcadas, não vai ser bom prenúncio.

Pelas calças abaixo nunca pode acontecer, mas a vontade aperta e tem de sair por algum lado. Enquanto conduz, a vontade ignora-se, combate-se e finge que desaparece. Os problemas chegam perto da cidade, no primeiro semáforo. Quanto mais perto, mais problemático, até parece que a bexiga conhece onde está. Mesmo sem nenhuma casa de banho perto, estar parado é sinal verde para o alívio. Martim aperta a barriga, mexe as pernas e aguarda ansiosamente pelo sinal que faça o trânsito andar.

Se aguentar esta vontade no trânsito já não é fácil, o que dizer de estacionar? É uma tarefa hercúlea que Martim tenta desempenhar com perfeição, ou pelo menos bem o suficiente para não acertar com o carro em lado nenhum. Se os lugares nestes parques subterrâneos são apertados, que dizer da bexiga do Martim? Mais apertada não é possível. O perigo aproxima-se.

A próxima missão é sair do parque e ir até ao café mais próximo. Destapar uma bexiga cheia é um alívio tão grande que quase merece o dinheiro que custa um café. Mas Martim ainda está longe, está no parque e não sabe onde será esse pequeno paraíso disfarçado. Escadas nem vê-las, sobra o elevador. Esperar indica estar parado, parar pode ser o pior, mas quem aguentou isto, tem de aguentar mais um bocadinho.

A solução, mais uma vez, é mexer as pernas. Sem pensar duas vezes, Martim começa a sambar, mal e porcamente porque não nasceu para ser bailarino. A verdade é que a vontade se retrai muito pouco, mas ajuda. A porta abre-se, Martim não percebe e a sua dança só é interrompida pelo desconforto de ter 4 pessoas a olhar para ele. Vergonha? Nada! Martim atira-se ao elevador e samba até ao piso certo.

Quem vê de fora, acha esquisito, o andar é estranho, a dança não faz sentido, nem ninguém precisa de se coçar tanto entre pernas como Martim vai fazendo pela rua. A verdade é que se soubessem o sofrimento que é tentar manter a calma de bexiga cheia, metade da cidade sambar e coçar o que mais achasse necessário.

O fim está perto. Café à vista! “Peço desculpa, posso pedir um café enquanto vou à casa de banho?” o empregado olha, também ele estranha o comportamento, mas diz que sim. Não importa se é de homem ou mulher, interessa é resolver o problema. E Martim, fazendo trinta por uma linha, entra na casa de banho, baixa as calças e faz o que é preciso. Por segundos é a melhor sensação do mundo. Melhor que isso, é saber que, no fim de toda a aventura, nem um pingo está na cueca.