Martim adora carros, mas não é grande fã na hora de os conduzir. Viveu toda a sua adolescência sem a ansiedade natural de querer tirar a carta assim que atingir a maioridade, ao contrário de todos os seus amigos. E, até aos 18, tudo corria bem.

Para ir para a escola, Martim sempre teve um motorista à sua disposição. Raros foram os dias em que se viu obrigado a experimentar o comboio, o autocarro e, como vive em Lisboa, até o elétrico mereceu uma oportunidade. Ainda assim, nada o satisfazia tanto como ter um motorista sempre pronto para o transportar para onde quisesse, apenas precisava de se sentar confortavelmente no banco de trás e informar qual seria o destino da próxima viagem.

Aos 18, o cenário foi diferente. Martim foi obrigado pelo pai a tirar a carta porque “Se queres ser alguém na vida, é bom que pelo menos saibas conduzir um carro.” E foi isso que, a muito custo, Martim conseguiu fazer. Felizmente para ele, apenas conduziu durante as aulas e o exame de condução, pois assim que completou a missão atríbuída pelo pai, Martim voltou a pedir o privilégio de continuar a ter o seu motorista.

A sorte tem destas coisas e Martim rapidamente começou a trabalhar nas empresas do pai. Aos poucos, acabou por herdar maiores responsabilidades e uma das suas funções é escolher a frota da empresa, incluindo o veículo que o transportará diariamente, ritual que acontece uma vez por ano. Por mais que os anos passem, os gostos não mudam e, para toda o staff que trabalha no stand automóvel, é sempre estranho ter alguém a pedir um test drive, mas que só quer andar no banco de trás.

Não interesse a potência, o consumo ou a cor do carro, apenas interessa o conforto interior de ter o rabo bem sentado num banco de pele acolchoado.