Manuel, o adolescente que vive a olhar para baixo, contínua encantado com o seu smartphone. Para ele, as únicas vidas com interesse são as que descobre navegando pelas redes sociais, sempre desinteressado pela vida que os seus olhos já não veem.

Na escola, Manel sempre foi bom aluno, tal como se exige a um “menino de boas famílias de Cascais”. Todos os dias, o motorista da família conduz Manel até à escola no Estoril, num pequeno trajeto de 15 minutos. Sem nunca olhar para a frente, Manel está já dentro da escola. Junto dos amigos, todos conversam de telemóvel na mão, ritual que levam para dentro da sala de aula.

Este vício tem feito com que Manel piore as notas e aparecem as primeiras negativas. Manel ainda não consegue estudar pelo smartphone, talvez fosse essa a sua salvação. Com a primeira negativa, o primeiro castigo. “Manuel, meu querido, já viu as suas notas? É uma vergonha! Amanhã não há motorista para ninguém, vai ter de ir de comboio ou como você quiser!” A sentença está dada, Manel ouviu com atenção e a primeira coisa que faz é ver qual o caminho para a estação.

Na manhã seguinte, Manel recebe uma boa notícia. Como é o primeiro castigo, a sentença foi reduzida e Manel tem boleia até à estação. Saí do carro, mochila às costas e aí vai ele, olhando para baixo, a ver o caminho no telemóvel. O motorista, sempre muito prestável a toda a família, decide acompanhá-lo com medo que se perca. Conhecendo o Manel desde pequenino, é bem provável que aconteça.

Vai com ele, ensina-o a comprar bilhete e deixa-o dentro do comboio. Manel entrou, sentou-se e aproveitou para ver o que se passava pelo Facebook. Manel sabe que demora 15 minutos de casa à escola, mas não sabe que de comboio são apenas 4, por isso, fica tranquilo, vendo as horas.

Passaram 15 minutos e Manel aproxima-se das portas do comboio. Comboio parado, portas abertas, Manel olha para a frente e não conhece o que os seus olhos vêem. Natural para quem passa o dia a ver o mesmo ecrã. Procura uma placa e descobre “Oeiras”. Conhece o nome, pois é “onde o meu pai tem o barco estacionado”, mas só conhece a marina. Assustado, telefona ao motorista que vem em seu socorro, salvando-o desde suplício. Amanhã é outro dia, talvez Manel tenha aprendido a lição, porque pior que ter más notas, é ter maus hábitos.