As Olimpíadas são de 4 em 4 anos, mas eu sinto-me um atleta de alta competição todos os dias. Excepto naqueles dias em que não saio de casa, esses sim, dias de verdadeiro descanso. Infelizmente, a modalidade que mais pratico não é reconhecida pelo Comité Olímpico, o que é uma tristeza porque eu sinto-me capaz de lutar por medalhas.

Pelo que vou percebendo, existem poucos atletas para tornar isto oficial. É uma pena. Mas afinal o que é que eu faço muito bem? Sou muito bom a contornar e a desviar-me do trânsito das pessoas que circulam em passeios, escadarias, passadeiras, centros comerciais, ou qualquer outro sítio. Especialmente em hora de ponta, numa estação de comboio ou metro. Desvio-me tanto que estou 5 minutos a andar sem me mexer.

Parece que todas as pessoas que se cruzam no meu caminho são setas que apenas conseguem caminhar numa direcção: em frente. Vão, a caminhar, como se fosse a final dos 100 metros, sempre a direito até ao seu objectivo. E eu, que não quero entrar em colisão com ninguém, vou fazendo o meu slalom, fintando todos os que aparecem, como se tivesse dentro de um caiaque a descer um rio, fazendo razias a todas as rochas que aparecessem.

Felizmente, uma pequena minoria de pessoas são como eu e, sempre que encontro um atleta desta mesma modalidade, não consigo não me rir depois do encontro. É hilariante ver o que acontece, se bem que, como acontece sempre comigo, fico-me pela imaginação. Quando duas pessoas assim se cruzam, acontece sempre o mesmo. Decidem desviar-se para o mesmo lado, e de repente, parece o início de uma coreografia alucinante. “Dançamos?”, penso eu, sem nunca o dizer em voz alta, porque seria estranho e porque, entretanto, já ambos seguimos o nosso caminho.