“Meto-me em cada uma.” Era o que pensava enquanto o chefe de sala me levava, gentilmente, à minha mesa. Sentei-me, pousei a carteira na mesa e abri o cardápio. Mal me sentei, a minha bexiga relembrou-me que estava presa por um fio. Queria escolher o prato para depois ir à casa de banho, mas todo eu dançava, como se a música e o espirito do samba tivessem dentro de mim. Neste caso, o samba que dançava é muito especial visto que só danço da cintura para cima.

Quando estou neste estado não sou bom a tomar decisões, acho que já se notou isso. Então, mal abri o cardápio, tive de o fechar e ganhar coragem para procurar o meu paraíso momentâneo. Que nome tão pomposo para descrever um simples WC. O caminho foi curto, mas o alívio foi transcendental, ou perto. Missão concluída! Mas já entrei dentro do restaurante, já escolhi a mesa, vou ter de almoçar aqui.

Não sou pessoa de rezas, mas assim que peguei no cardápio, apelei rapidamente a todos os santos que me lembrei por duas coisas: que o menu tenha alternativas a sushi ou que exista a opção bitoque, mesmo que seja no “menu das crianças”. Neste momento já tinha à vontade para qualquer coisa, senti-me livre e desinibido.

Abri o menu e li milhentos nomes de pratos e especialidades (entre elas, como era óbvio, muitas variedades do famoso sushi) e encontrei a minha salvação na página 3, numa pequena secção chamada “Noodles”. Eu adoro noodles. De certeza que seriam uns noodles muito mais requintados e temperados do que aqueles a que estou habituado, mas pensei que já era algo que conhecia.

“Quero este coiso de camarão.” Disse eu, sem querer arriscar numa nomenclatura tão simples como “Yakisoba de camarão”. Pedi água e esperei por um golpe de sorte divino em que o prato seria maravilhoso e que eu gostava de tudo. É que eu sou um bocadinho esquisito, tenho um processo estranho para provar coisas novas, e já me senti estranho o suficiente.2016-06-30 09.25.57 1

Perdoem-me a qualidade da fotografia, o meu telemóvel não é topo de gama.

Em 5 minutos, chegou um prato muito bonito com uma apresentação e quantidade de comida agradável. Mas ainda havia um problema que rapidamente foi resolvido. Disse o senhor que me trouxe o prato “Vai utilizar os pauzinhos ou prefere talheres?”, ao que respondi “Talheres se faz favor.” Masdentro de mim rolava uma festa imensa de pequenos “eus” que gritavam SALVAÇÃO. Os noodles eram bons, o camarão também, e aqueles “alimentos” roxos, verdes e laranjas também não eram maus. Não sei o que eram, talvez algas, talvez legumes. Não identifiquei o sabor, concentrei-me no que conhecia. Podia sempre ter calhado naqueles restaurantes que compram os pratos enormes para não os encherem de comida.

No final, posso admitir que foi um final bastante feliz e que agora conheço mais um restaurante interessante de nome Hanaya. Guardei esta revelação para o fim porque eu próprio só descobri onde estava quando o chefe de mesa, muito amavelmente, me ofereceu um cartão da casa.

(Ler o Primeiro Episódio desta história.)